A Visa anunciou a compra da israelense BioCatch por US$ 2,4 bilhões em dinheiro. A empresa não analisa a transação — analisa quem está do outro lado da tela: a velocidade da digitação, o jeito de deslizar o dedo, o ângulo em que a pessoa segura o celular. A premissa é que o golpista se comporta de um jeito que o dono da conta não se comporta.
O negócio foi fechado com fundos assessorados pela gestora britânica Permira e demais acionistas. A conclusão depende de aprovação regulatória e está prevista para até o fim do segundo trimestre fiscal de 2027 da Visa — uma janela longa de escrutínio antitruste pela frente.
O que a empresa faz
Fundada em 2011, a BioCatch monitora hoje 1,8 bilhão de dispositivos e protege 760 milhões de usuários em 21 países. São 19 bilhões de sessões analisadas por mês, para mais de 350 bancos — entre eles, mais de cem dos maiores do mundo.
A diferença em relação ao antifraude tradicional está no momento da checagem. O modelo clássico examina a transação: valor fora do padrão, destino desconhecido, horário atípico. A biometria comportamental examina a sessão inteira, desde o login, procurando sinais de que quem opera não é quem deveria.
Isso responde a um tipo específico de crime que o modelo antigo não pega: o golpe em que a própria vítima autoriza a transferência. Se o dono da conta digita a senha, confirma o valor e aprova o envio, não há nada de anômalo na transação — a anomalia está no fato de ele estar sendo instruído por telefone por um estranho.
“Tomadas de conta e golpes custam à economia global mais de US$ 1 trilhão por ano, e a inteligência artificial está viabilizando esses ataques em escala sem precedentes”, afirmou Andrew Torre, presidente de serviços de valor agregado da Visa. Gadi Mazor, presidente-executivo da BioCatch, resumiu a lógica: entender a intenção do cliente em tempo real virou essencial para os bancos.

Por que isso interessa ao Brasil
Poucos países estão tão expostos a esse tipo de fraude quanto o brasileiro. Entre julho de 2024 e junho de 2025, mais de 24 milhões de pessoas foram vítimas de golpes envolvendo Pix e boletos, com perdas que somam R$ 29 bilhões, segundo levantamento da Febraban.
Só em fraudes de Pix, 2024 fechou com R$ 4,941 bilhões em valores não devolvidos às vítimas — alta de 70% sobre 2023. Em outro recorte, a federação calculou R$ 10,1 bilhões de prejuízo ao setor bancário em dois anos, com os golpes via Pix crescendo 43%.
A resposta brasileira atual é o Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central, que atua depois: identificada a fraude, tenta-se recuperar o dinheiro. A proposta da tecnologia que a Visa comprou é diferente — travar a operação antes de o valor sair. Uma repara, a outra previne, e nenhuma das duas resolve sozinha.
O que o anúncio não diz
Três pontos ficaram de fora do comunicado.
O primeiro é comercial. A BioCatch vende para mais de cem dos maiores bancos do mundo, muitos deles emissores que também trabalham com a Mastercard. Um fornecedor até então neutro passa a pertencer a uma bandeira — o que cria motivo para instituições rivais procurarem alternativa.
O segundo é de privacidade. O produto é, na prática, vigilância biométrica comportamental sobre quase dois bilhões de aparelhos. O material divulgado não detalha base legal, forma de consentimento nem prazo de retenção desses dados de comportamento.
O terceiro é de método. O número de US$ 1 trilhão anuais em golpes é estimativa da própria Visa, que vende serviços de prevenção a fraude — não há metodologia pública nem fonte independente. E como a receita da BioCatch não foi divulgada, não há como avaliar se US$ 2,4 bilhões é caro ou barato.
Há ainda o risco regulatório. A Visa já teve uma aquisição barrada por antitruste nos Estados Unidos: a compra da Plaid, bloqueada em 2021. O prazo alongado até 2027 sugere que a empresa conta com um processo demorado de aprovação.











