Produção industrial cai 1,8% em junho, o dobro do esperado, na véspera da decisão de juros

Interior de fábrica

A produção industrial brasileira recuou 1,8% de maio para junho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal divulgada nesta terça-feira (4) pelo IBGE. É a segunda queda seguida, e o resultado veio mais que o dobro pior do que o mercado esperava — o consenso da Reuters apontava recuo de 0,8%.

O dado chega no dia em que o Comitê de Política Monetária começou a reunião que define a taxa básica de juros, com anúncio marcado para quarta-feira.

A queda foi generalizada

Não se trata de um setor puxando a média para baixo. As quatro grandes categorias econômicas fecharam junho no negativo, e 16 dos 25 ramos pesquisados recuaram.

As perdas mais fundas vieram de farmoquímicos e farmacêuticos, com -11,0%, e de derivados de petróleo e biocombustíveis, com -5,9% — este último foi o que mais pesou no índice geral, por causa do tamanho do setor. Produtos químicos caíram 4,3% e alimentos, 1,9%.

Do lado positivo sobraram três: indústrias extrativas, com alta de 7,4%, celulose e papel, com 5,4%, e veículos automotores, reboques e carrocerias, com 5,3%.

Dois meses apagaram metade do ano

Somadas, as quedas de maio e junho tiram 2,7% da produção. Isso consome boa parte do avanço de 4,4% que a indústria havia acumulado nos quatro primeiros meses do ano.

O quadro completo, porém, não é de colapso. Na comparação com junho de 2025, a indústria ainda cresce 1,7%. No acumulado de 2026 a alta é de 1,5%, e em doze meses, de 0,7%. Ou seja: o setor desacelera, não encolhe.

Há também um componente de composição a considerar. Farmacêuticos e refino são ramos voláteis, sujeitos a paradas de manutenção e a calendário de produção — uma queda concentrada neles sugere fator pontual, e não retração generalizada da demanda.

Farmacêuticos e refino puxaram a queda de junho; extrativas, celulose e veículos foram na direção oposta.
Farmacêuticos e refino puxaram a queda de junho; extrativas, celulose e veículos foram na direção oposta.

O que o número não explica

A leitura mais repetida hoje é que a indústria sente os juros altos. É plausível, mas a pesquisa do IBGE não mede isso.

A série mostra o quanto foi produzido, não o motivo. Nada nela separa o efeito do custo do crédito do efeito de estoques elevados, de parada programada em refinaria ou de dias úteis no mês. Atribuir a queda à Selic é interpretação — legítima, mas interpretação.

Esta divulgação também não traz dado de emprego industrial, o que impediria dizer se as fábricas já reduziram pessoal ou apenas ritmo.

O pessimismo já estava nos dados antes

A queda de junho não pegou o setor de surpresa. Duas semanas antes de o IBGE divulgar a pesquisa, a CNI mostrou que o Índice de Confiança do Empresário Industrial havia recuado 2,3 pontos em julho, para 44,4 — abaixo dos 50 que separam otimismo de pessimismo, e o pior número desde junho de 2020, no auge da pandemia.

São 19 meses seguidos abaixo da linha. Em julho o pessimismo alcançou 26 dos 29 setores pesquisados, contra 24 no mês anterior; sobraram três otimistas. A piora veio dos dois lados do indicador, a avaliação do presente e a expectativa para os próximos seis meses recuaram juntas.

O reflexo disso aparece no investimento. Levantamento da própria confederação apontou que 56% das indústrias pretendem investir em 2026 e 23% não pretendem. Entre as que adiaram ou cancelaram planos, o motivo mais citado foi queda de receita, com 80%, seguido de incerteza econômica, com 79%, e expectativa de demanda insuficiente, com 73%.

Por que isso chega ao seu bolso

A indústria paga alguns dos melhores salários com carteira assinada e movimenta cadeias inteiras — metalurgia, autopeças, química, embalagem. Dois meses seguidos de queda costumam se traduzir, algumas semanas depois, em contratação mais lenta e menos hora extra.

Há o outro lado. Demanda industrial fraca alivia a pressão sobre preços de bens e reforça o argumento de quem defende juros menores — que chegam ao consumidor pelo crédito mais barato: cartão, financiamento de carro, prestação de imóvel.

É exatamente esse o dilema na mesa do Copom nesta quarta. O mercado dá como certo um corte de 0,25 ponto, levando a Selic de 14,25% para 14%: as opções digitais da B3 dão 88% de chance a esse cenário e 11% à manutenção. Os 14,25% de hoje já são o menor patamar de 2026 — o comitê cortou 0,25 ponto em março, abril e junho, e manteve a taxa na reunião de maio. O Boletim Focus desta semana passou a projetar a taxa em 13,75% no fim do ano, primeira revisão para baixo desde março.

O que ainda está em aberto não é o corte, e sim o texto do comunicado. Se ele sinalizar continuidade, o mercado precifica mais reduções até dezembro. Se sinalizar cautela, o ciclo pode parar em setembro — e a indústria, que já vem de dois meses no vermelho, levaria mais tempo para sentir alívio.

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