Sarampo chega a 16 casos em São Paulo, e dez deles são bebês que ainda não podiam ser vacinados

Mão de bebê segurando o dedo de um adulto

Dez dos 16 casos de sarampo confirmados em São Paulo neste ano são de bebês com menos de 1 ano. É a idade em que ninguém consegue se proteger sozinho: a primeira dose da tríplice viral só entra no calendário aos 12 meses. Essas crianças dependiam de não haver vírus circulando à volta delas — e havia.

Os outros seis pacientes são adultos entre 20 e 50 anos. No total são sete homens e nove mulheres. A capital concentra 13 registros, São Bernardo do Campo tem dois e Guarulhos, um.

A linha que não podia ser cruzada

O vírus entrou pela porta de sempre. Dois moradores da capital voltaram doentes de viagem, um da Bolívia e outro da Guatemala. O que veio depois é que mudou a natureza do problema: os demais casos foram contraídos dentro de São Paulo, e os dois pacientes de São Bernardo pegaram a doença por contato com gente da capital, sem ter saído do país.

A diferença entre caso importado e caso autóctone separa um susto de um surto. No primeiro, o vírus entra e morre num organismo isolado. No segundo, encontrou uma fila de pessoas suscetíveis e passou a circular por conta própria. O Ministério da Saúde descreveu a região como área de intensa mobilidade populacional, com elevado fluxo de viajantes internacionais.

Fora de São Paulo, o Rio confirmou um caso: uma mulher de 22 anos, não vacinada, funcionária de um hotel na Zona Sul — primeiro registro na cidade desde 2022.

O Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde, em novembro de 2024, a recertificação de país livre da circulação endêmica do sarampo. O selo não cai por causa de algumas dezenas de casos. Cai se a mesma cadeia de transmissão se mantiver ativa por doze meses seguidos — e é esse relógio que começou a correr.

A campanha, e um número que o site do governo não mostra

A resposta começou em 3 de agosto. O estado abriu a Campanha Nacional de Multivacinação nos 645 municípios paulistas e, em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, a tríplice viral passou a ser oferecida a todas as pessoas de 6 meses a 59 anos que morem ou trabalhem nas três cidades — inclusive quem já tem o esquema completo, e sem exigir comprovante de doses anteriores. Vai até 1º de setembro.

Bebês de 6 a 11 meses recebem a chamada dose zero, antecipada. É exatamente a faixa dos dez casos.

O sarampo é o vírus respiratório mais contagioso que se conhece: cada infectado transmite para algo entre 12 e 18 pessoas suscetíveis, contra duas ou três da gripe. Daí a barreira exigida ser tão alta. Com 95% de cobertura a cadeia se rompe sozinha; abaixo disso, ela anda.

Os dados preliminares de 2026 apontam 77,5% na primeira dose e 65,5% na segunda, bem longe da meta. Cabe aqui uma ressalva que quase nenhuma matéria fez: são números de um ano ainda em curso, com registro incompleto, e não podem ser comparados diretamente com anos fechados. A cobertura nacional de 2025, essa consolidada, foi de 92,9% na primeira dose — também abaixo da meta, mas em outra ordem de grandeza.

Seja qual for o recorte, o buraco está na segunda dose. É ela que fecha a proteção, e é ela que vem sendo esquecida.

Há ainda um detalhe que o leitor não encontra no site do governo. A página de situação epidemiológica do sarampo do Ministério da Saúde ainda exibe dois casos no país, número referente à semana epidemiológica 14 — ou seja, abril. Os registros atuais circulam por comunicados à imprensa e por notas das secretarias, não pelo painel oficial.

A campanha vai até 1º de setembro e vale para quem mora ou trabalha em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, mesmo com o esquema vacinal completo.
A campanha vai até 1º de setembro e vale para quem mora ou trabalha em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, mesmo com o esquema vacinal completo.

O alerta era pela Copa; o vírus entrou por outra porta

Desde março o Ministério dizia estar em alerta máximo. Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações, usou a expressão para descrever o que acontecia no continente: as Américas fecharam 2025 com 14.891 casos confirmados em 14 países e 29 mortes, e até 5 de março de 2026 já somavam 7.145 — metade do ano anterior em dois meses.

Em maio veio a campanha para viajantes, montada em torno da Copa do Mundo. Fazia sentido: o torneio é nos Estados Unidos, no México e no Canadá, justamente os três países que respondem por cerca de 70% dos casos das Américas. O México passou de 10 mil registros no ano; os Estados Unidos, de 1,7 mil. A orientação foi específica — duas doses para quem tem de 12 meses a 29 anos, ao menos uma para quem está entre 30 e 59.

Só que o vírus que circula hoje em São Paulo não veio de lá. Veio da Bolívia e da Guatemala. O alerta acertou o diagnóstico — o continente está em surto — e errou o endereço.

Nenhuma morte foi registrada no Brasil neste ciclo. O sarampo, porém, não se resume a febre e manchas na pele: evolui para pneumonia e encefalite, e a letalidade se concentra justamente em crianças pequenas — os dez bebês. A janela para conter a transmissão é curta, e depende de uma variável só: quantas pessoas aparecerem no posto até 1º de setembro.

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