A operação autorizada por Alexandre de Moraes contra o apontado como fonte de um jornalista no Maranhão não parou na porta da casa dele. Em dois dias, virou reação de entidades de imprensa, de senadores, de um governador e de juristas — e, segundo relatos de bastidor, incomodou dentro do próprio Supremo.
Há um detalhe nessa história que mudou o peso de tudo: não é o primeiro round.
Primeiro o jornalista, agora a fonte
O repórter Luís Pablo publicou reportagens sobre o uso de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares do ministro Flávio Dino.
Ele próprio já havia sido alvo da Polícia Federal no início deste ano. Foi a partir do material recolhido então que se chegou ao nome de Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do estado, agora atingido pela busca.
Ou seja: a apuração começou no jornalista e terminou na fonte dele. É essa sequência — e não a busca isolada — que os críticos apontam como o problema.
As três entidades que representam a imprensa
Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação Nacional de Jornais e a Associação Nacional de Editores de Revistas manifestaram “profunda preocupação” com a decisão.
O argumento delas é direto: ações que violam o sigilo da fonte carecem de base constitucional e abrem precedente contra a liberdade de imprensa garantida em 1988.
Isso é manifestação formal de entidade, com nota assinada — categoria diferente de relato anônimo, e vale registrar a diferença.
Especialistas ouvidos pela imprensa acrescentaram o efeito prático, que é o que de fato importa: a fonte que vê outra fonte ser localizada para de falar. Não por medo do processo, mas por cálculo. E a reportagem que depende de documento interno simplesmente deixa de existir.

A reação política, e o que ela é
No Congresso, o senador Rogério Marinho classificou a decisão como “um grave precedente contra a liberdade de imprensa”.
O senador Carlos Viana foi mais longe: “Cadê a liberdade de imprensa? Isso não é proteção da Justiça, me parece um recado. Um recado claro: não incomode os intocáveis.”
O governador Romeu Zema pediu que jornalistas reagissem — “não se calem” —, e o senador Flávio Bolsonaro também criticou a medida.
Convém a honestidade de classificar o que é cada coisa: essas são manifestações políticas, de adversários do ministro, e não pareceres jurídicos. Não valem menos por isso, mas não se confundem com a nota das entidades nem com a análise dos especialistas.
E dentro do Supremo?
Aqui é preciso segurar a mão, porque é onde a informação fica mais frágil.
Circulam relatos de que a decisão desagradou colegas de Moraes na Corte. Mas nenhum ministro se manifestou publicamente, nenhum nome foi citado, e não há voto, recurso ou questão de ordem levada ao colegiado. É bastidor — e bastidor sem nome não é fato apurado.
O que se pode afirmar com segurança é o desenho institucional do caso, e ele é desconfortável por si só: um ministro do Supremo decide sobre uma investigação que nasceu de reportagens envolvendo a família de outro ministro do Supremo.
Não há, até aqui, qualquer indicação de que Flávio Dino tenha pedido a operação. O pedido partiu da Polícia Federal, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.
Cutrim, que é delegado aposentado da PF e adversário político declarado de Dino, segue preso por outro processo — a acusação de obstruir uma investigação de homicídio envolvendo um parente, que ele nega.
O próximo capítulo depende do que a defesa encontrar quando finalmente tiver acesso aos autos. Até lá, o que existe é uma pergunta que a Constituição já respondeu em 1988 e que voltou a ficar em aberto.










