SpaceX quer virar operadora de celular, mas no Brasil a Anatel já decidiu que ela não pode agir sozinha

Torre de telefonia celular com antenas

Na terça-feira, durante a primeira teleconferência de resultados da SpaceX como empresa de capital aberto, a presidente e chefe de operações Gwynne Shotwell anunciou que a companhia pretende construir infraestrutura terrestre para transformar a Starlink num serviço móvel completo — concorrendo de frente com Verizon, AT&T e T-Mobile.

“O espectro que compramos da EchoStar tem componentes terrestres, então nós definitivamente pretendemos construir em terra”, disse. A meta, segundo ela, é tornar a Starlink “um verdadeiro serviço móvel” e conquistar “bastantes” clientes das três grandes operadoras americanas.

As ações das três caíram entre 1% e 2,4% no pré-mercado do dia seguinte.

O que existe e o que ainda não existe

Convém separar as duas coisas, porque o anúncio foi tratado em boa parte da cobertura como se fosse produto.

O que existe: a SpaceX pagou cerca de US$ 19,6 bilhões à EchoStar por 65 MHz de espectro, em dois acordos fechados em setembro e novembro de 2025. E opera hoje um serviço limitado de conexão direta ao celular em parceria com a T-Mobile.

O que não existe: preço, plano, data de lançamento comercial e uma única estação instalada. O que houve na terça foi uma declaração de intenção numa call com investidores.

A promessa de capacidade “cem vezes melhor” depende dos satélites de segunda geração, cujo lançamento está previsto para 2027. É meta autodeclarada da empresa, sem verificação independente e sem nenhum desses satélites em órbita.

O modelo descrito por Shotwell foge do padrão do setor: em vez de torres, femtocélulas montadas sobre a própria antena da Starlink. “Você pode colocar uma estação-base celular basicamente no equipamento que segura a antena de banda larga”, explicou. Elon Musk resumiu como antenas Starlink “que também fornecem conectividade nas faixas de espectro móvel”.

Os analistas não compraram

A reação do mercado especializado foi majoritariamente cética.

Dimitris Mavrakis, da ABI Research, foi o mais duro: disse que Musk “é louco se acha que small cells 5G com backhaul de Starlink podem oferecer serviço melhor e mais barato que AT&T, Verizon e T-Mobile”. David Barden, da New Street Research, questiona replicar trinta anos de infraestrutura terrestre com apenas 65 MHz de espectro.

Do lado das operadoras, nenhuma quis comentar diretamente. A Verizon vinha argumentando que o satélite é limitado pela física e serve melhor a áreas rurais do que a zonas urbanas densas. John Stankey, presidente da AT&T, disse à CNBC que novos concorrentes são inevitáveis, mas que operadoras de satélite enfrentam a tarefa difícil de competir com redes construídas ao longo de décadas.

Vale registrar o interesse de cada lado: a SpaceX vendeu essa narrativa no dia em que precisava justificar um investimento trimestral de US$ 18,4 bilhões e um papel que já acumulava queda desde o IPO. As operadoras têm o interesse oposto, o de minimizar a ameaça. E a ação da SpaceX caiu 13,6% na quarta — por causa do investimento, não do plano de telefonia.

A Anatel destinou as faixas para conexão direta em caráter secundário, e só em associação com a operadora detentora do direito primário — a Starlink não pode operar sozinha no Brasil.
A Anatel destinou as faixas para conexão direta em caráter secundário, e só em associação com a operadora detentora do direito primário — a Starlink não pode operar sozinha no Brasil.

No Brasil, a regra já está escrita — e é outra

Aqui está o ponto que a cobertura internacional não fez.

Em 2 de julho, um mês antes do anúncio, o Conselho Diretor da Anatel aprovou o arcabouço para conexão direta de satélite a celular no Brasil. Foram destinadas, em caráter secundário, as faixas de 700 MHz, 850 MHz, 900 MHz, 1,8 GHz, 1,9/2,1 GHz e 2,5 GHz.

E veio junto a regra que muda tudo: o uso dessas faixas via satélite só pode ocorrer em associação com a operadora terrestre detentora do direito primário. Ou seja, no Brasil a Starlink não pode vender serviço móvel por conta própria. Precisa de Vivo, Claro ou TIM.

É exatamente o oposto do modelo de operadora completa que Shotwell descreveu para o mercado americano. E há um obstáculo adicional: a SpaceX não detém espectro terrestre no Brasil, o que torna inaplicável, sob as regras atuais, a ideia das femtocélulas próprias.

A Anatel também autorizou a Telefônica Brasil a fazer testes de conexão direta em todo o território nacional entre 19 de julho e 22 de outubro, com até 50 terminais e potência máxima de 100 watts, em caráter secundário. Uma ressalva importante: o ato oficial não identifica a empresa de satélite envolvida — a associação com a SpaceX vem de apuração de imprensa, não de documento público.

Há ainda um acordo fechado entre a Starlink e uma operadora brasileira, noticiado em 21 de julho, cujo nome não foi divulgado: a SpaceX pediu à agência reguladora americana sigilo de trinta dias, alegando risco competitivo. Termos e faixas também não vieram a público.

O tamanho do mercado brasileiro

O interesse pelo país se explica pelos números. Segundo a Anatel, a Starlink tinha 836.847 acessos no Brasil em junho, 1,5% do mercado de banda larga fixa. A própria empresa afirma ter passado de 1 milhão de clientes — a diferença vem do recorte, já que o regulador conta acessos de banda larga fixa licenciados.

Na zona rural a posição é bem mais forte: 9,3% de participação no primeiro semestre, à frente de Claro, com 6,5%, e Vivo, com 5,4%, segundo levantamento da Ookla. Entre janeiro e maio, a base da Starlink cresceu mais rápido que a de qualquer outra operadora do país.

Nada disso deve virar serviço de celular tão cedo. O lançamento comercial de conexão direta no Brasil não é esperado antes de 2027, e depende de satélites que ainda não foram lançados.

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