Primeiro híbrido plug-in flex do mundo sai de Camaçari, e o benefício fiscal que o viabiliza vence em dezembro

Carro elétrico sendo recarregado

A BYD colocou nas lojas nesta quarta-feira o Song Pro Super Híbrido Flex Fuel, um SUV que roda com eletricidade, gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois combustíveis. A empresa o apresenta como o primeiro híbrido plug-in flex do mundo — e o carro só faz sentido num país onde existe etanol na bomba e frota flex há vinte anos.

A versão de entrada sai por R$ 176.990, treze mil reais abaixo da geração anterior. A de topo mantém os R$ 199.990.

O que a fábrica passou a fazer

O modelo é montado em Camaçari, na Bahia, no complexo que era da Ford até 2021. É o primeiro carro da BYD com estamparia, solda e pintura executadas no Brasil — antes a planta apenas montava kits que chegavam prontos da China.

A unidade produziu 100 mil veículos até meados de julho e emprega 1.800 pessoas diretamente, com meta de 3.500 até o fim de 2027. A meta, convém dizer, é promessa corporativa, não realização.

O mesmo vale para o grau de nacionalização, que a empresa apresenta de duas formas incompatíveis: uma versão afirma que mais da metade dos componentes já vem de empresas instaladas no Brasil, outra diz que a companhia planeja chegar a mais da metade até janeiro de 2027. Não há índice auditado por terceiro divulgado. E “fornecido por empresa instalada no Brasil” não significa “peça fabricada no Brasil” — a fornecedora pode ser importadora.

Os números que a montadora declara e os que o Inmetro chancela

Aqui vale separar com cuidado, porque a diferença é grande.

O que tem selo do Inmetro é a autonomia em modo puramente elétrico: 57 km na versão de entrada e 72 km na de topo. É o número que descreve o uso mais comum de um híbrido plug-in — o trajeto diário de casa ao trabalho sem gastar combustível.

Já os 1.105 km de autonomia combinada que aparecem no material de divulgação vêm do ciclo NEDC, um protocolo de teste antigo, reconhecidamente otimista, que a Europa abandonou em favor do WLTP justamente por descolar da realidade. Com etanol, o mesmo ciclo indica 805 km.

Os consumos anunciados — até 16 km/l com gasolina e 12,1 km/l com etanol — também são declarados pela montadora. E há um detalhe que nenhum ciclo captura: o consumo real de um híbrido plug-in depende de o dono carregar na tomada. Quem não carrega anda com um carro mais pesado, carregando uma bateria descarregada, e gasta mais do que gastaria num híbrido comum.

A ficha técnica: motor 1.5 aspirado de ciclo Atkinson com 98 cv somado a um elétrico de 163 cv, resultando em 219 cv combinados e 300 Nm. Bateria de 13,1 kWh na versão de entrada e 18,3 kWh na de topo. Vai a 100 km/h em 8,8 segundos e tem porta-malas de 530 litros.

A cota de alíquota zero para kits importados foi renovada por seis meses, com teto de US$ 463 milhões — e vence em 31 de dezembro.
A cota de alíquota zero para kits importados foi renovada por seis meses, com teto de US$ 463 milhões — e vence em 31 de dezembro.

A disputa que decide o preço

O preço de R$ 176.990 não se explica só por eficiência industrial. Ele depende de uma decisão tarifária que tem prazo para acabar.

Em 23 de junho, o comitê de comércio exterior do governo renovou por seis meses, a partir de 1º de julho, a cota de alíquota zero para importação de kits de veículos elétricos, com teto de US$ 463 milhões. Acima disso, incidem 35% para kits semidesmontados e 14% para os completamente desmontados. Essa renovação vence em 31 de dezembro.

A decisão foi tomada contra a posição da Anfavea, que representa as montadoras tradicionais. Em carta aberta de 19 de junho, a entidade pediu o fim das cotas e a manutenção da alta da tarifa, citando um estudo próprio que projeta R$ 96,8 bilhões de perda em vendas de autopeças nacionais, R$ 24,3 bilhões a menos de arrecadação e 259 mil empregos em risco.

São números de estudo encomendado por parte interessada, com premissas não abertas ao público — o que não os invalida, mas exige a ressalva. Do outro lado, a BYD tem interesse igualmente direto em enfatizar que produz em Camaçari e desenvolveu um flex para o Brasil: é esse argumento que sustenta politicamente a manutenção do benefício que ela mesma pediu.

Abipeças e Sindipeças, que representam fabricantes de autopeças, repudiaram a criação de cotas adicionais. A lógica é a mesma: eles só vendem se o carro for de fato feito aqui.

O mercado que mudou de tamanho

O pano de fundo é uma virada rápida. Os eletrificados responderam por 21,24% das vendas de veículos leves no Brasil em julho. No primeiro semestre foram 215 mil emplacamentos, alta de 125% sobre o mesmo período de 2025.

A BYD emplacou 23.465 veículos em julho, recorde da marca no país e alta de 142% em um ano. Passou a Chevrolet e ficou atrás apenas de Fiat e Volkswagen.

Com a versão de entrada abaixo dos R$ 180 mil, o Song Pro entra numa faixa que pressiona diretamente o Corolla Cross híbrido e o Haval H6. Em março, o modelo já havia vendido 3.064 unidades contra 1.548 do concorrente da Toyota.

O que acontece depois de dezembro é a parte da história que ainda não foi escrita. A briga entre Anfavea e BYD volta à mesa do governo antes do fim do ano, e dela depende se esse preço se sustenta.

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