O River Plate chegou a um acordo verbal com o Atlético de Madrid pela contratação do meia argentino Thiago Almada, ex-Botafogo, superando o Flamengo numa disputa que se arrastava havia um mês. O entendimento foi selado na madrugada desta quinta-feira.
Antes de qualquer coisa, uma ressalva que quase não aparece na cobertura: nenhum dos três clubes anunciou nada. O que existe é acordo de palavra. Faltam troca de documentos, exames médicos e assinatura. O jogador estava de férias em Ibiza e a chegada a Buenos Aires é esperada para segunda-feira.
O número que não explica o resultado
Aqui está o dado que torna o caso interessante, e que passou batido na maior parte das manchetes.
O River fechou por cerca de 20 milhões de euros. O Flamengo havia oferecido 30 milhões — metade a mais. E perdeu.
A explicação não está no valor total, e sim em como ele seria pago. O clube argentino apresentou garantias financeiras mais firmes ao Atlético de Madrid do que o brasileiro conseguia bancar. Para um clube que precisa recuperar caixa, receber menos à vista e com segurança pode valer mais do que receber mais parcelado ao longo de anos.
Quem explicou isso com todas as letras foi o próprio diretor de futebol do Flamengo, José Boto — dois dias antes do desfecho. Ao desembarcar no Galeão na madrugada de terça-feira, voltando de Buenos Aires, ele disse ao Lance!:
“Uma coisa é pagar 20 milhões em um ano. Outra é pagar em dois, três ou cinco. Isso faz toda a diferença numa negociação.”
E completou: “Nós não entraríamos em leilões. Aquilo que já tínhamos combinado é aquilo que vai ser, se ele quiser vir para o Flamengo.” Também disse que o clube não pode “querer jogadores no auge da carreira e pagar como se fossem promessas”.
Vale registrar o óbvio: é do interesse do dirigente enquadrar a derrota como escolha estratégica, e a fala é anterior ao resultado. Mas ela descreve com precisão o mecanismo que decidiu a negociação.
O que se sabe e o que não se sabe do negócio
O contrato de Almada com o River iria até o fim de 2030. O salário citado gira em torno de 5 milhões de dólares por temporada, informação que aparece em uma única publicação.
Há pontos em aberto que convém não fingir que estão fechados. A imprensa brasileira fala em 20 milhões de euros; a argentina, em 20 milhões de dólares — e as duas cifras não podem estar corretas ao mesmo tempo, já que 20 milhões de euros equivalem a cerca de 23 milhões de dólares. Também divergem as versões sobre o percentual adquirido: a maior parte das fontes fala em 50% dos direitos econômicos, que é o coerente com o que o Atlético comprou em 2025, mas há quem publique passe integral.
Se confirmada, será a contratação mais cara da história do River e do futebol argentino, à frente dos 15 milhões de dólares pagos por Ángel Correa.
Circula ainda a versão de que o fator decisivo foi o desejo do jogador de voltar à Argentina e ficar perto da família. É informação do entorno do atleta, não algo verificável — e convenientemente suaviza o fato de ele ter aceitado a proposta financeiramente menor.

Por que um argentino do Atlético interessa ao Brasil
Almada foi peça central do Botafogo que ganhou Libertadores e Brasileirão em 2024. Saiu para o Lyon por empréstimo e foi vendido ao Atlético de Madrid em 2025 por 21 milhões de euros por metade dos direitos.
Na Espanha não emplacou: 40 jogos oficiais, apenas 18 como titular, 4 gols e 2 assistências. É esse desempenho que abriu a janela de saída um ano depois.
A transação passa longe do Botafogo, e o motivo é estrutural. Os 50% que pertenciam ao clube carioca migraram para o Lyon dentro da holding que reunia os dois — um exemplo concreto de como a multipropriedade de clubes pode esvaziar o ativo do time brasileiro na hora da revenda. O que exatamente o Botafogo recebe, se é que recebe, é ponto em que as fontes se contradizem, e não há resposta pública confiável.
O clube também não tinha como disputar: a recuperação judicial de sua SAF foi aprovada pela Justiça do Rio em maio.
O mesmo impasse se repete agora
Enquanto negociava Almada, o Flamengo já havia formalizado investida por outro ex-Botafogo, o atacante Luiz Henrique, do Zenit.
E o impasse é idêntico. O clube russo quer o pagamento à vista; o brasileiro propõe parte à vista e o restante parcelado, mais bônus. Os valores publicados variam bastante — de 30 a 35 milhões de euros —, em parte porque os veículos captaram momentos diferentes da negociação e nem todos somam bônus ao fixo.
É a mesma discussão que custou Almada. O nome muda, a variável não: no mercado europeu, quem paga à vista leva, mesmo oferecendo menos.
Nada disso está resolvido. Enquanto não houver anúncio oficial, exame médico e assinatura, os dois negócios seguem sendo acordo de palavra — e, nas últimas três semanas, essa disputa já mudou de vencedor mais de uma vez.











