Santos negocia 80% da SAF com grupo dos EUA, mas não confirma o R$ 1 bilhão

A Vila Belmiro, estádio do Santos, durante partida

O Santos assinou na sexta-feira um acordo com a SDC Sports, empresa norte-americana, para a venda do controle da futura SAF do clube. A compradora ficaria com 80%, e o Santos manteria 20%.

Os números que circularam desde então são grandes: até R$ 1 bilhão de aporte no futebol e cerca de R$ 1 bilhão em dívidas assumidas. Só que o comunicado oficial do clube não traz um único valor. Tudo o que se sabe de cifra veio de apuração de imprensa.

O que foi assinado não é uma venda

O documento é um term sheet, e não é vinculante. Ele fixa condições e abre a fase de auditoria — não obriga ninguém a comprar nem a vender.

O próprio texto condiciona qualquer negócio à satisfação da due diligence dos dois lados e à assinatura da documentação definitiva. Antes disso, o caminho é longo: reforma do estatuto do clube, aprovação do Conselho Deliberativo e aprovação da Assembleia Geral de Associados.

Qualquer uma dessas etapas derruba a operação. A mais imprevisível é a assembleia — e ela depende de sócios, em ano de eleição no clube.

A proposta chegou em fevereiro e a negociação levou cerca de cinco meses. Do lado da compradora atuaram Rothschild, Alvarez & Marsal e o escritório BMA; do lado do Santos, XP, EXA Capital, Press FC e Bichara e Motta.

A conta de R$ 2 bilhões não é o que parece

Circulou que a operação vale R$ 2 bilhões. O número existe, mas é uma soma de coisas que não se somam.

De um lado, até R$ 1 bilhão de aporte futuro — e o “até” importa, porque parte da cobertura o derrubou e publicou o valor como se fosse certo. Não há cronograma de desembolso divulgado.

Do outro, cerca de R$ 1 bilhão em dívidas assumidas. Dívida assumida não é dinheiro que entra no clube. É passivo que troca de dono. Não contrata jogador, não reforma centro de treinamento, não paga folha nova.

Somar as duas coisas e apresentar como preço pago ao Santos infla a operação em cerca do dobro.

O Santos faturou R$ 678,5 milhões em 2025, cerca de 70% mais que em 2023 — e ainda assim fechou o ano com déficit de R$ 79,3 milhões.
O Santos faturou R$ 678,5 milhões em 2025, cerca de 70% mais que em 2023 — e ainda assim fechou o ano com déficit de R$ 79,3 milhões.

O tamanho do buraco

O balanço de 2025 ajuda a entender por que o clube senta à mesa.

O endividamento fechou o ano em R$ 998,5 milhões. O passivo total é maior, acima de R$ 1,23 bilhão — mas são conceitos diferentes, e boa parte dessa diferença são receitas antecipadas, que não são dívida exigível no mesmo sentido.

A dívida se divide em cerca de R$ 690 milhões de natureza operacional — salários, direitos de imagem, acordos judiciais, empréstimos e fornecedores — e R$ 307 milhões de passivos antigos, como impostos parcelados.

E o problema não é falta de receita. O Santos faturou R$ 678,5 milhões em 2025, cerca de 70% mais do que em 2023. Ainda assim fechou com déficit de R$ 79,3 milhões.

É um clube que arrecada cada vez mais e mesmo assim não fecha a conta — o retrato que explica a SAF.

A oposição, e o calendário que aperta

A reação interna veio no mesmo dia, e ataca o método, não o mérito.

O conselheiro Ivan Luduvice levou o caso ao Ministério Público Federal e quer saber quem são os verdadeiros donos da SDC Sports. Maurício Maruca questiona a pressa de vender o controle do clube faltando menos de cinco meses de mandato. José Renato Quaresma critica negociar antes de arrumar a casa.

O mandato de Marcelo Teixeira termina em dezembro, quando o Santos tem eleição. Se a assembleia não aprovar a reforma do estatuto antes disso, a decisão cai no colo do próximo presidente.

A próxima data marcada é 31 de agosto, na Vila Belmiro, quando os sócios da SDC se apresentam ao Conselho Deliberativo. E aqui está o detalhe mais revelador de todos: a proposta de compra não entra em pauta nessa reunião, por acordo de confidencialidade.

Ou seja, os conselheiros vão conhecer os compradores antes de conhecer o negócio.

Do lado da SDC, os nomes que aparecem são Michael Lipman e Diego Garcia, sócios da gestora, e Jesse Fioranelli, ex-diretor esportivo da Roma, como diretor de futebol. As prioridades declaradas de investimento são categorias de base, infraestrutura, expansão comercial da marca e elenco.

Sobre Neymar, Fioranelli disse apenas que o jogador “significa muito para este clube e para o futebol”. Não há, no material divulgado, nenhum compromisso da compradora com renovação ou salário.

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