O IPCA subiu 0,07% em julho, informou o IBGE nesta terça-feira. Em doze meses, o índice acumula 4,44% — abaixo do teto da meta, que é de 4,5%.
É uma boa notícia, e vale registrar como tal: a inflação oficial voltou ao intervalo perseguido pelo Banco Central. Mas voltou por seis centésimos. E o que segurou o índice foi o tipo de preço que sobe de novo no mês seguinte.
O que puxou para baixo sai da terra
Alimentação e bebidas recuou 0,67%, na segunda deflação mensal seguida do grupo. Foi o que impediu o índice de subir mais: tirou 0,14 ponto percentual do resultado.
E o recuo veio concentrado na banca de hortaliças. O tomate caiu 29,09% — sozinho, esse item tirou 0,10 ponto do IPCA, mais do que o índice cheio do mês. Batata-inglesa recuou 19,59%, cenoura 14,41%, café moído 2,45%.
Nem tudo no carrinho ficou mais barato: o leite longa vida subiu 2,47% e as frutas, 1,20%.
O ponto que a manchete não conta é que preço de hortaliça é o mais volátil de toda a cesta. Depende de chuva, de safra e de frete. O tomate que caiu 29% em julho pode voltar a subir em agosto sem que nada tenha mudado na economia.

O que subiu não volta atrás
Do outro lado da conta está a habitação, que avançou 0,99% e foi o grupo de maior impacto no mês: somou 0,15 ponto.
O motor foi a energia elétrica residencial, que subiu 3,09% — o dobro da alta de junho, quando havia sido de 1,53%. Só esse item somou 0,13 ponto.
Em saúde e cuidados pessoais, alta de 0,40%, puxada pelos reajustes de plano de saúde autorizados pela agência reguladora do setor. Transportes subiu apenas 0,05%, com passagem aérea em alta e combustível em queda.
Aqui está a diferença que importa para o bolso. Hortaliça oscila; reajuste de tarifa de energia e de mensalidade de plano de saúde entra na conta e fica. São gastos contratuais, que se repetem todo mês e não têm safra melhor no mês seguinte.
A luz não subiu igual em todo lugar
A média nacional de 3,09% esconde diferenças grandes entre as capitais, porque cada distribuidora tem seu próprio calendário de reajuste.
Em Curitiba, a energia elétrica subiu 19,55% em um único mês. Em Porto Alegre, 14,89%. Em São Paulo, 8,85%.
São altas de reajuste tarifário local, aprovadas pela agência do setor elétrico, e não efeito da bandeira nacional. Para a família curitibana, o IPCA de 0,07% não descreve coisa alguma do que aconteceu com a fatura dela.
É a limitação de qualquer índice nacional: ele é média, e média esconde extremos.
Para quem faz a compra do mês, a leitura prática é essa: a feira ficou mais barata em julho, e a conta fixa ficou mais cara. A diferença é que a feira pode voltar a subir, e a conta fixa já subiu de vez.
Acima do esperado, apesar da manchete
Há ainda um detalhe técnico que quase não aparece na cobertura. O mercado projetava alta de 0,03% no mês e 4,40% em doze meses. Vieram 0,07% e 4,44%.
Ou seja: pelo critério com que analistas leem esses números, julho foi uma surpresa inflacionária — o índice veio pior do que se esperava, mesmo tendo sido baixo em termos absolutos.
Isso pesa na leitura do Banco Central, que cortou a Selic para 14% no início do mês e sinalizou que a continuidade do ciclo dependeria dos dados. Este é o primeiro dado relevante depois daquela decisão.
Vale ainda separar duas coisas que circularam juntas. Na semana passada saiu um índice com deflação de 0,86% em julho, número que virou manchete de “inflação em queda” — mas aquele é o IGP-DI, cuja maior parte mede preço de atacado, e o que despencou nele foi minério de ferro e boi.
O índice que mede o que você paga é este, e ele subiu. Pouco, mas subiu.
Fica a régua para os próximos meses: com o índice em 4,44% e o teto em 4,5%, qualquer mês um pouco pior recoloca a inflação acumulada fora do intervalo. A margem de manobra é de seis centésimos — e boa parte dela está apoiada no preço do tomate.











