O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, na noite desta quarta-feira. A decisão foi unânime entre os sete membros do comitê e não surpreendeu ninguém: o mercado dava o corte como praticamente certo.
É a quarta redução consecutiva. O ciclo começou em março, depois de a taxa atravessar todo o segundo semestre de 2025 parada em 15% — o patamar mais alto em quase duas décadas.
O número que não fecha
Há uma tensão no centro dessa decisão que merece ser dita com todas as letras.
A meta de inflação no Brasil é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo. O teto, portanto, é 4,5%. E a projeção do próprio Banco Central para o IPCA de 2026, apresentada nesta reunião, é de 5,1% — acima do teto.
O comitê está cortando juros enquanto projeta descumprir a meta no ano corrente. Isso não é contradição nem erro: a política monetária opera com defasagem de seis a dezoito meses, então o que se persegue é a inflação lá na frente, não a deste ano, que já está em boa parte determinada. Para 2027 o BC projeta 3,8%, e para o primeiro trimestre de 2028 — o horizonte que hoje orienta as decisões — 3,2%, praticamente na meta.
Ainda assim, vale registrar: a projeção de 2026 melhorou pouco, de 5,2% para 5,1%. E as expectativas do mercado seguem acima do alvo, em 5,0% para este ano e 4,2% para o próximo.
O comunicado foi escrito para não dizer
O corte já estava no preço dos ativos. O que o mercado esperava mesmo era a sinalização sobre o resto do ano — e o Copom se recusou a dar.
O comitê afirmou que vai manter “a restrição adequada” até garantir a convergência da inflação à meta, e que “a magnitude total do ciclo de calibragem será estabelecida à luz de novas informações”. Em português corrente: não se comprometeram com nada.
O texto descreve um cenário de incerteza elevada, com expectativas desancoradas e riscos altos em torno do cenário base — quadro que, segundo o próprio comunicado, exige serenidade e cautela na condução da política monetária.
Chama atenção o reconhecimento explícito de que as expectativas estão desancoradas. É o BC admitindo que o mercado não acredita plenamente que a meta será cumprida no prazo, o que encarece o custo de trazer a inflação de volta.
Os riscos foram descritos como assimétricos para cima. Do lado da alta, pressões salariais e volatilidade de commodities. Do lado da baixa, uma desaceleração da atividade mais profunda que a prevista e a incerteza no comércio global.

O que sustentou o corte
Três elementos apareceram na justificativa.
O primeiro é a inflação corrente dando trégua: o IPCA-15 desacelerou para 4,52% em doze meses até julho. O segundo é o câmbio comportado, com o dólar estável perto de R$ 5,11 — moeda estável reduz a pressão sobre preços de importados e combustíveis.
O terceiro é a atividade econômica perdendo força de forma gradual. Aqui entra o dado divulgado na véspera pelo IBGE: a produção industrial caiu 1,8% de maio para junho, segunda queda seguida e mais que o dobro do que se esperava. Demanda mais fraca alivia a pressão sobre preços e reforça o argumento de quem defende juros menores.
O que muda no seu bolso
Pouca coisa, e não de imediato.
Um corte de 0,25 ponto é modesto. Em quatro reduções, a Selic saiu de 15% para 14% — um ponto inteiro, o que já começa a aparecer em financiamento imobiliário e crédito para empresas, mas praticamente não se nota no rotativo do cartão ou no cheque especial, onde as taxas são de outra ordem de grandeza.
Para quem investe, o efeito é o inverso e igualmente gradual: aplicações atreladas ao CDI rendem um pouco menos a cada corte, e títulos prefixados comprados antes do ciclo valorizam.
O que realmente importa para os próximos meses não foi decidido ontem. Se a inflação continuar cedendo e a atividade seguir desacelerando, o ciclo prossegue e a Selic pode terminar o ano abaixo de 14% — o Boletim Focus já projeta 13,75%. Se as expectativas não reancorarem, o comitê tem espaço, pelo texto que escreveu, para parar quando quiser.











