No primeiro balanço da SpaceX aberta, o negócio de foguetes é o menor dos três e responde por 12% da receita

Lançamento de foguete

A SpaceX divulgou nesta terça-feira, depois do fechamento do mercado, o primeiro resultado trimestral de sua história como empresa de capital aberto. A receita somou US$ 7,814 bilhões entre abril e junho, alta de 92% sobre o mesmo período do ano passado e bem acima dos US$ 6,93 bilhões que os analistas esperavam.

O prejuízo líquido caiu para US$ 541 milhões, contra US$ 1,008 bilhão um ano antes — uma redução de 46%.

Receita quase dobrando, prejuízo pela metade, resultado acima do consenso. A ação caiu mais de 8% no after-hours.

A empresa mudou de ramo sem mudar de nome

Para entender o balanço é preciso saber o que a SpaceX virou em fevereiro. No dia 2 daquele mês, a companhia incorporou a xAI numa fusão inteiramente em ações que avaliou o conjunto em US$ 1,25 trilhão — US$ 1 trilhão pela SpaceX e US$ 250 bilhões pela xAI. Foi a maior fusão privada já registrada, e trouxe para dentro da empresa o chatbot Grok e a rede social X. Semanas depois do IPO, a companhia usou as próprias ações recém-listadas para comprar a startup de programação Cursor por US$ 60 bilhões.

O resultado aparece na divisão por segmento, e ela é reveladora:

  • Conectividade (Starlink): US$ 4,291 bilhões, alta de 66%
  • Inteligência artificial: US$ 2,561 bilhões, alta de 247%
  • Espaço: US$ 962 milhões, alta de 29%

O negócio que dá nome à empresa é o menor dos três. Foguetes e lançamentos respondem por cerca de 12% do que a SpaceX fatura. Internet por satélite e inteligência artificial, somadas, fazem os outros 88%.

Por que a ação caiu com um balanço bom

O mercado não olhou a linha da receita. Olhou a do investimento.

A SpaceX gastou US$ 18,369 bilhões em capital no trimestre — mais que o dobro de tudo o que faturou no período. Só o segmento de inteligência artificial consumiu US$ 15,828 bilhões em infraestrutura, ou seja, dezesseis vezes a receita inteira da divisão espacial.

É o dilema conhecido de quem constrói data center para IA: o gasto vem hoje, inteiro e em dinheiro, e o retorno é uma promessa de prazo indefinido. Com queima desse tamanho, o investidor passa a perguntar não se a empresa cresce, mas por quanto tempo aguenta financiar o crescimento.

6 de agosto

Há um segundo motivo para o nervosismo, e ele tem data marcada.

Dois pregões depois do balanço, em 6 de agosto, vence o período de lock-up do IPO. Executivos e acionistas antigos ficam livres para vender até 20% do que têm em ações restritas — algo em torno de 911,5 milhões de papéis, perto de US$ 123 bilhões pelo preço recente.

A trajetória até aqui já foi acidentada. A ação foi precificada a US$ 135 em 11 de junho, estreou na Nasdaq no dia seguinte e chegou a US$ 225,64 quatro dias depois. Em 31 de julho fechou a US$ 108,37 — mais de 40% abaixo do pico e abaixo do próprio preço de emissão.

Ainda assim, a leitura das casas de análise segue positiva: 27 dos 28 analistas que acompanham o papel recomendam compra, com preço-alvo médio de US$ 236,71 para os próximos doze meses. Vale a ressalva de sempre — recomendação de analista é opinião sobre o futuro, não medição do presente, e a distância entre o alvo médio e o preço atual é de mais de 100%.

O Brasil é o segundo maior mercado do Starlink no mundo: a base saiu de 656 mil para 791 mil assinaturas entre janeiro e maio, segundo a Anatel.
O Brasil é o segundo maior mercado do Starlink no mundo: a base saiu de 656 mil para 791 mil assinaturas entre janeiro e maio, segundo a Anatel.

O que isso tem a ver com o Brasil

Mais do que parece. O Brasil é o segundo maior mercado do Starlink no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Os dados da Anatel mostram a base saindo de 656.413 para 791.052 assinaturas de banda larga fixa entre janeiro e maio deste ano, crescimento de 20,5%. No primeiro semestre, o Starlink respondeu por 9,3% do mercado rural brasileiro, à frente da Claro, com 6,5%, e da Vivo, com 5,4%.

Aqui cabe uma distinção que costuma se perder. A empresa afirma ter passado de 1 milhão de clientes no país; o registro oficial da Anatel aponta 836.847. Números diferentes não significam necessariamente que alguém errou — o regulador conta assinaturas de banda larga fixa licenciadas, e a empresa conta contas ativas, que incluem usos não enquadrados nessa categoria. Mas é o número da Anatel que serve de base para comparação com as outras operadoras.

O crescimento já cobra o seu preço

Levantamento da Ookla divulgado no fim de julho mostrou queda na velocidade média de download do Starlink no Brasil, atribuída ao congestionamento provocado pelo próprio crescimento acelerado da base. Satélite tem capacidade finita por região: cada novo assinante divide a mesma banda com os anteriores.

Globalmente, o Starlink dobrou para 12 milhões de assinantes em um ano. É o motor de receita da companhia — e, por enquanto, quem paga a conta da corrida da inteligência artificial.

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