Módulo de memória de 16 GB saiu de R$ 280 para R$ 950, e a conta da IA sobra para quem compra no varejo

Um módulo de memória DDR4 de 16 GB a 3.200 MHz custava entre R$ 220 e R$ 280 no começo de 2024. Em janeiro deste ano, chegou a R$ 950 nas lojas brasileiras. Em fevereiro, um pente DDR5 de 8 GB era vendido entre R$ 850 e R$ 1.000 — mais do que se pagava, dois anos antes, por um kit inteiro de 32 GB.

O mercado apelidou o período de “Rammageddon”. O nome é exagerado; os números não são.

O tamanho da alta

O levantamento mais detalhado veio do site alemão 3D Center, que acompanhou o varejo local ao longo de doze meses. Alguns modelos de DDR5 ficaram 448% mais caros desde julho de 2025.

Um módulo DDR5 de 16 GB a 5.600 MT/s acumulou alta de cerca de 410%. Um kit de 32 GB, com dois módulos de 16 GB a 6.000 MT/s, subiu 431%. A escalada ganhou força entre setembro e outubro de 2025 e atingiu o pico em novembro e dezembro.

Não ficou restrito à DDR5. A DDR4, tecnologia da geração anterior e teoricamente em fim de vida, teve modelos com alta superior a 300%. Os SSDs seguiram junto: unidades M.2 PCIe Gen 4 de 1 TB subiram mais de 200%.

A Alemanha serve de termômetro porque é um varejo grande, competitivo e com histórico público de preços. Mas o Brasil não escapa da mesma curva — aqui ela chega multiplicada pelo câmbio e pela tributação de importados.

Por que faltou memória

A explicação cabe em uma frase: os data centers de inteligência artificial compraram a fábrica inteira.

Chips de memória para servidores de IA passaram a consumir uma fatia crescente da capacidade produtiva mundial. E capacidade, nesse setor, não se cria por decisão — uma fábrica de semicondutores leva anos e dezenas de bilhões de dólares para sair do papel. Com a produção redirecionada, o que sobrou para memória de computador pessoal encolheu.

Chey Tae-won, presidente da SK Hynix, projetou que a procura por chips voltados à IA pode crescer entre 60% e 100% nos próximos anos, enquanto a capacidade de produção avança em ritmo bem menor.

Fabricantes vêm realocando linhas de memória para PC em direção a servidores de IA, onde a margem é maior — e o varejo, que não tem contrato de longo prazo, absorve a diferença.
Fabricantes vêm realocando linhas de memória para PC em direção a servidores de IA, onde a margem é maior — e o varejo, que não tem contrato de longo prazo, absorve a diferença.

Quem tem contrato não sente

Aqui está a parte que costuma ficar de fora da explicação, e que responde por que a alta recai desproporcionalmente sobre o consumidor comum.

Vários grandes provedores de nuvem americanos fecharam acordos plurianuais de fornecimento, os chamados LTAs, que impedem os fabricantes de reajustar preço para esses clientes durante a vigência. Ou seja: as empresas que mais pressionam a demanda são justamente as que travaram o próprio custo.

Ao mesmo tempo, os fabricantes seguem realocando linhas de produção de memória para PC em direção a memória para servidor, onde a margem é maior. Sobra menos produto para o varejo — e o varejo não tem contrato de longo prazo para se proteger.

Os números da consultoria TrendForce mostram o efeito. Para o terceiro trimestre deste ano, ela elevou a projeção de alta dos preços de contrato da DRAM de PC de 8%-13% para 15%-20%. Na DRAM de servidor, a previsão é de 13% a 18%, com altas trimestrais que devem se estender até o segundo semestre de 2027.

Comprar agora ou esperar

As leituras divergem, e vale conhecer as duas.

Parte do varejo brasileiro avalia que os preços atingiram um teto no início do ano e se estabilizaram em patamar alto, sem novas disparadas à vista. A TrendForce, olhando o preço de contrato global, projeta o contrário: mais alta no trimestre em curso.

As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Preço de contrato e preço de prateleira andam com defasagem de meses, e estoque comprado antes segura a etiqueta por um tempo. O que a divergência sugere é que a estabilidade percebida na loja pode ser temporária.

Para quem vai montar ou atualizar máquina, há uma consequência prática incômoda: a DDR4 voltou a ser opção defensável. Não por mérito técnico — a DDR5 é mais rápida —, mas porque a diferença de preço deixou de ser proporcional à diferença de desempenho na maioria dos usos domésticos.

E há o efeito que não aparece na etiqueta. Diante do custo do componente, boa parte dos fabricantes de máquinas prontas não repassa tudo: corta. Notebook de 2026 saindo com a mesma memória do de 2024, ou com armazenamento menor pelo mesmo dinheiro. O consumidor não vê a alta no preço, vê no aparelho que envelhece mais rápido.

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