O IGP-DI, índice calculado pela Fundação Getulio Vargas, registrou deflação de 0,86% em julho. É a segunda queda mensal seguida, depois dos 0,79% negativos de junho.
O número foi divulgado na sexta-feira e virou manchete de “inflação em queda”. Só que ele não mede a inflação que chega ao seu bolso — e o que puxou o índice para baixo estava mais perto do navio de exportação do que da gôndola.
O que esse índice mede de verdade
O IGP-DI é uma média de três coisas diferentes: 60% vem do atacado, 30% do consumidor e 10% da construção civil.
Ou seja: a maior parte do índice acompanha o preço que o produtor cobra, não o que você paga. Quando ele cai, isso diz mais sobre commodity e exportação do que sobre supermercado.
A inflação oficial do país é o IPCA, medido pelo IBGE. O de julho só será divulgado na terça-feira, dia 11. Até lá, qualquer número de inflação de julho que circular é projeção de analista, não dado.
Para referência: o último IPCA fechado, o de junho, foi de 0,16% no mês e 4,64% em doze meses. Bem longe de deflação.
A divergência que explica tudo
Dentro do próprio índice, os dois pedaços foram em direções diferentes.
O componente de atacado despencou 1,31%, com matérias-primas brutas caindo 3,02%. Os destaques: minério de ferro, com queda de 3,7%, e bovinos, com 3,6%.
Já o componente do consumidor recuou apenas 0,08% — praticamente parado, depois de ter subido 0,36% em junho.
Traduzindo: o boi ficou mais barato para o frigorífico, não para você. O índice mede o preço da arroba no atacado, e não capta se, quando e quanto disso é repassado ao açougue. A imprensa do setor vem registrando justamente que o varejo tem resistido a repassar as quedas.

Metade dos preços continua subindo
Há um indicador dentro da pesquisa que costuma passar despercebido e é dos mais reveladores: o índice de difusão, que mede a proporção de itens que subiram de preço.
Ele está em 50,97%. Ou seja, mesmo com o índice geral negativo, metade dos produtos pesquisados ficou mais cara. A deflação vem de poucos itens com peso grande, não de um recuo generalizado.
E o que subiu é justamente o que não dá para adiar. No componente do consumidor, habitação avançou 0,39% e o grupo de educação e lazer, 1,06%. Na construção, o índice subiu 0,61%, com mão de obra em alta de 0,93%.
Na conta de luz, a bandeira amarela foi mantida em agosto pelo quarto mês seguido — acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora, algo como R$ 3,77 a mais numa casa de consumo médio.
O alívio tem causa geopolítica, e é reversível
Boa parte da queda no atacado veio do petróleo, e o petróleo caiu por um motivo que não tem nada a ver com a economia brasileira: o arrefecimento das tensões no Estreito de Ormuz, que reduziu o risco na principal rota de escoamento do mundo.
A própria fundação que calcula o índice apontou esse fator ao comentar o resultado do mês anterior. Tensão geopolítica que se desfaz também pode voltar — e é por isso que essa desinflação não é considerada estrutural.
Vale outra correção de perspectiva: em doze meses o índice ainda acumula alta de 2,77%, e no ano, 2,12%. Em abril deste ano, ele subiu 2,41% em um único mês. A deflação é recente e mensal, não uma tendência consolidada.
Curiosidade que contraria a manchete: o mercado esperava queda de 0,92%, e veio 0,86%. Pelo padrão com que analistas leem esses números, o resultado foi menos deflacionário que o previsto.
Quem realmente ganha com isso
Há um grupo que sente o efeito de forma direta: quem tem contrato de aluguel a vencer.
Contratos de locação costumam ser reajustados pelo IGP-M — índice irmão, com período de coleta diferente, que acumula 2,76% em doze meses, contra 4,64% do IPCA. Quem tem contrato fazendo aniversário agora leva o menor reajuste em anos.
São 18,9 milhões de domicílios alugados no país, quase um quarto do total, segundo o IBGE.
Mas há uma armadilha: o reajuste baixo vale para quem já tem contrato. Quem for alugar agora enfrenta preço de mercado, que vem subindo bem acima do índice.
Do outro lado, para o produtor rural e a mineração, boi e minério mais baratos significam margem menor. O índice negativo é, para eles, má notícia.
O número que responde de fato como está o custo de vida sai na terça.











