O Brasil rebaixou o nível da relação diplomática com a Argentina. A comunicação foi feita em 4 de agosto ao embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, junto com uma nota de protesto pela “continuidade dos insultos” ao presidente Lula.
Raimondi deixou o país no domingo, dia 9. A embaixada argentina passa a ser tocada por uma encarregada de negócios, María Emilia Cortés. Do outro lado, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, segue no Brasil — e, segundo o Itamaraty, não volta enquanto as ofensas continuarem.
Em duas semanas, portanto, a crise saiu do protesto verbal e chegou ao penúltimo degrau da escala diplomática.
A escala que quase ninguém explica
Existe uma gradação bem definida no protocolo internacional, e vale entender onde estamos.
O primeiro degrau é a nota de protesto. O segundo é chamar o embaixador para consultas — foi o que o Brasil fez em 26 de julho, no dia seguinte ao discurso de Milei. É um gesto de desagrado, e o embaixador costuma voltar em poucos dias.
O terceiro é o rebaixamento a encarregado de negócios, que é onde a crise está agora. Significa que nenhum dos dois países mantém embaixador no posto do outro: quem responde é um diplomata de escalão inferior. As embaixadas continuam abertas, vistos continuam sendo emitidos, mas o canal político de alto nível fica suspenso.
Só depois viria o rompimento de relações, que é o fim da linha e não está em discussão.
O que foi dito, e o que continuou sendo dito
O estopim foi 25 de julho. Javier Milei discursou em São Paulo, na convenção do PL que lançou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, de “lixo careca”.
O que transformou o episódio em crise prolongada não foi o discurso em si, mas o que veio depois. Milei repetiu as acusações em entrevistas à imprensa argentina, acrescentando “ladrão” e “corrupto”, e afirmou que Brasil, México e integrantes do Partido Democrata dos Estados Unidos financiariam uma campanha contra o seu governo — atribuindo ao Brasil a maior parte.
A Casa Rosada nunca cogitou retratação. A avaliação interna, segundo relatos da imprensa argentina, era de que o silêncio bastaria para o desgaste passar.

A conta que ninguém fez
A cobertura toda parou na diplomacia. Mas há um número que dá a dimensão do que está em jogo.
No primeiro semestre de 2026, Brasil e Argentina movimentaram US$ 13,75 bilhões em comércio. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China (US$ 96,87 bilhões) e dos Estados Unidos (US$ 36,4 bilhões).
E aqui está o dado incômodo: o Brasil vendeu US$ 7,35 bilhões ao vizinho no período — uma queda de 19,4%. As compras subiram 3,8%, para US$ 6,40 bilhões. O saldo brasileiro caiu para US$ 951 milhões.
No mesmo semestre, a China ultrapassou o Brasil como principal fornecedor da Argentina.
Convém ser rigoroso com a causa, porque a tentação de errar aqui é grande: esses números são anteriores à crise. Fecham em junho, e o discurso de Milei foi em 25 de julho. A briga não derrubou as exportações.
O problema é outro, e é pior. O Brasil vinha perdendo espaço no mercado argentino antes de a relação azedar. A crise chega em cima de uma tendência que já estava andando sozinha — e agora sem o canal de alto nível que serviria justamente para reagir a ela.
Do lado de lá, a dependência é maior
Se a conta assusta o Brasil, para a Argentina ela é mais dura.
O mercado brasileiro absorve cerca de 13% de tudo o que a Argentina exporta, e concentra 69% das vendas argentinas dentro do Mercosul. É o principal destino de manufaturados do país — o setor que emprega, e que Milei precisa manter de pé enquanto executa o ajuste.
Ou seja: o presidente argentino escolheu abrir uma crise política com o comprador do qual sua indústria mais depende. É uma aposta de que a economia não segue a diplomacia.
Historicamente, ela costuma dar certo. Comércio entre Brasil e Argentina já sobreviveu a atritos maiores, porque as cadeias produtivas — automotiva, sobretudo — estão integradas há décadas e não se desmontam por discurso.
O que vem agora
Nenhum dos dois governos sinalizou movimento de reaproximação. O Itamaraty condicionou o retorno de Bitelli ao fim das ofensas; Milei não deu sinal de que vá parar.
Enquanto isso, os dois países seguem sócios do Mercosul e sentam à mesma mesa nas negociações do bloco — inclusive no acordo com a União Europeia, que depende de coordenação entre eles.
É a contradição que sustenta o episódio: dois governos que não se falam no nível mais alto continuam obrigados a negociar juntos. E o calendário não ajuda — a temperatura tende a subir, não a cair, com as eleições dos dois lados da fronteira no horizonte.











