Por que a inteligência artificial consome tanta água e energia?

Um data center de médio porte, com 1 megawatt de capacidade e resfriamento tradicional, consome cerca de 25,5 milhões de litros de água por ano. Multiplique isso pela corrida de infraestrutura que a inteligência artificial provocou e chega-se ao número que hoje preocupa reguladores: os data centers do mundo consomem 560 bilhões de litros anuais, com projeção de 1,2 trilhão até 2030.

A conta de energia é igualmente pesada. Segundo a Agência Internacional de Energia, essas instalações consumiram cerca de 415 terawatt-hora de eletricidade em 2024 — perto de 1,5% de toda a energia usada no planeta.

O gasto tem duas origens. A primeira é o treinamento dos modelos: para ensinar um sistema a responder perguntas ou gerar imagens, empresas mantêm milhares de processadores trabalhando ao mesmo tempo por semanas ou meses. A segunda é o uso cotidiano. Cada pergunta feita a um chatbot dispara novos cálculos, e os servidores não desligam.

Onde a água entra

Todo esse processamento vira calor. Sem refrigeração eficiente, os equipamentos falham — e é aí que a água aparece. Boa parte das instalações usa sistemas evaporativos, em que a água absorve o calor e se perde na atmosfera. Outras adotam refrigeração a ar ou levam líquido diretamente até os processadores.

A diferença entre esses métodos não é detalhe técnico. Sistemas evaporativos gastam menos energia e mais água; os de circuito fechado invertem a equação. Onde a instalação fica também muda tudo: um data center em região de estresse hídrico compete por um recurso escasso, enquanto o mesmo equipamento em clima frio pode dispensar boa parte da refrigeração.

Corredor de servidores em data center. O calor gerado pelos equipamentos é o que puxa o consumo de água.
Corredor de servidores em data center. O calor gerado pelos equipamentos é o que puxa o consumo de água.

Os números das gigantes

Os relatórios de sustentabilidade das próprias empresas mostram a curva. O consumo de água do Google subiu cerca de 20% de 2021 para 2022 e mais 17% no ano seguinte. Na Microsoft, os saltos foram de 34% e 22% no mesmo período.

Nos Estados Unidos, onde está a maior concentração de servidores, o uso passou de 3.726 megalitros em 2020 para 5.637 megalitros em 2024 — alta de 51% em quatro anos. Somando tudo, os data centers americanos beberam perto de 1 trilhão de litros em 2025, volume comparável à demanda anual da cidade de Nova York.

A pressão surtiu efeito. Meta, Google, Amazon e Microsoft passaram a adotar resfriamento em circuito fechado, que reaproveita o mesmo líquido em vez de evaporá-lo. A tecnologia reduz drasticamente o consumo de água, mas cobra o preço em eletricidade — o problema muda de lugar, não desaparece.

Quanto custa uma pergunta

Os números globais são abstratos; a escala individual ajuda a entender. Pesquisadores da Universidade da Califórnia calcularam que gerar um texto de 100 palavras num chatbot consome em média 519 mililitros de água — pouco mais de meio litro, ou uma garrafinha. Uma conversa de 20 a 50 perguntas gasta quantidade parecida.

Em eletricidade, cada resposta desse tamanho custa cerca de 0,14 kWh, o suficiente para manter 14 lâmpadas de LED acesas por uma hora. Uma consulta simples fica em torno de 0,34 watt-hora.

Isolado, o gasto é irrelevante. O problema é a multiplicação: se cada um dos aproximadamente 400 milhões de usuários semanais do ChatGPT fizer uma única pergunta por dia, o consumo diário passa de 950 mil kWh.

O Brasil entrou na rota

O assunto deixou de ser distante. Governos estaduais brasileiros vêm oferecendo incentivos para atrair data centers, e especialistas ouvidos pela Unesp alertam para o consumo hídrico desses projetos em um país que já enfrenta crises de abastecimento periódicas.

A discussão também ganhou rua. Uma onda de protestos contra a instalação de data centers se espalhou por vários países ao longo deste ano, geralmente em comunidades que disputam água com as novas instalações.

Há um obstáculo que atravessa todo o debate: falta transparência. Não existe padrão obrigatório de divulgação de consumo hídrico por data center, e boa parte dos números disponíveis vem de relatórios voluntários das próprias empresas. Sem medição independente, fica difícil saber quanta água a inteligência artificial realmente bebe — e mais difícil ainda regular.

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